Entrevistada: Valesca Bicca Vieira Jähn
Tema: Certificação GMP+FSA no transporte e afretamento
William Rossano:
Valesca, para começar, o que significa a certificação GMP+FSA no contexto do transporte e afretamento?
Valesca:
A GMP+FSA é uma norma internacional que garante a segurança de alimentos para animais ao longo de toda a cadeia produtiva, inclusive no transporte. No caso do transporte e afretamento, ela estabelece critérios claros para evitar riscos de contaminação cruzada, exige protocolos de limpeza documentados e define responsabilidades para empresas contratantes e subcontratadas. Isso assegura que desde o embarque até a entrega final, a integridade e a segurança do produto sejam preservadas.
William Rossano:
Fala-se muito sobre transporte rodoviário e compartimentos de carga. Quais são os principais pontos de atenção nesse processo?
Valesca:
O transporte rodoviário de ração animal não é apenas mover um produto de um ponto ao outro. Ele envolve planejamento, inspeção de compartimentos de carga, limpeza adequada — seguindo inclusive o banco de dados IDTF — e registro de operações. Os compartimentos precisam estar limpos, secos, livres de odores, insetos e resíduos de cargas anteriores. Além disso, há uma preocupação em verificar os três últimos carregamentos do veículo, o que ajuda a evitar contaminações indiretas.
William Rossano:
E quando o transporte envolve mais de um modal, como hidroviário ou ferroviário, os desafios aumentam?
Valesca:
Com certeza. Nestes casos, a norma exige ainda mais controles, como a Inspeção do Compartimento de Carga (LCI). Esse relatório deve confirmar que o compartimento está apto para receber a carga, incluindo informações como os últimos carregamentos, a últimas limpezas, e até mesmo instruções de carregamento parcial. Bem como muitas outras informações obrigatórias.
William Rossano:
O documento também menciona o Protocolo Gatekeeper. O que é isso na prática?
Valesca:
O Gatekeeper é um mecanismo de segurança que permite contratar serviços de transporte ou insumos de empresas não certificadas em GMP+FSA, mas que passam por condições especiais de homologação. Ele funciona como uma espécie de “porta de entrada controlada”, em que a empresa contratante se responsabiliza por garantir que as condições de segurança sejam cumpridas. No entanto, não cumprir este protocolo pode resultar em não conformidade crítica, devido à quebra de cadeia, o que pode comprometer toda a certificação.
William Rossano:
Poderia dar um exemplo prático de risco no transporte?
Valesca:
Claro. Imagine uma empresa que produz farelo de soja no Mato Grosso e deseja transportá-lo até Manaus. Se o veículo que fará esse transporte rodoviário tiver carregado anteriormente pneus e lã de vidro, é necessário um regime de limpeza específico, conforme o banco IDTF. Caso essa limpeza não seja realizada corretamente, há um risco elevado de contaminação cruzada.
William Rossano:
Para finalizar, Valesca, qual é o impacto da certificação GMP+FSA para empresas que atuam em transporte e logística?
Valesca:
O impacto é enorme. Além de garantir conformidade regulatória e segurança dos aliemntos, a certificação fortalece a confiança de clientes internacionais, abre portas em mercados exigentes e reduz riscos de recalls ou crises de imagem. Mais do que uma exigência, ela se torna uma vantagem competitiva no setor agroalimentar. Afinal, transportar ração animal com segurança não é apenas um detalhe técnico, é um compromisso com toda a cadeia de produção e, indiretamente, com a saúde pública.