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Entrevista: Consulta publica sobre as novas regras de BPF & APPCC da ANVISA

Willian:

Valesca, a ANVISA abriu a Consulta Pública nº 1.362/2025 trazendo mudanças em BPF e APPCC. Na sua visão, isso é realmente um marco importante ou mais uma atualização regulatória?

 

Valesca:

Eu vejo como um passo importante de amadurecimento do regulatório brasileiro. Não é uma ruptura completa, mas é uma sinalização clara de que o foco está cada vez menos no “cumprir tabela” e mais em gestão de riscos, eficácia dos controles e evidências reais de funcionamento do sistema.

 

Willian:

Na prática, quem você acha que vai sentir mais esse impacto?

 

Valesca:

Principalmente as empresas que ainda tratam BPF e APPCC como obrigação documental. Quem já usa essas ferramentas como parte da gestão do negócio tende a se adaptar com ajustes pontuais. Mas quem ainda opera de forma muito reativa vai precisar rever processos, rotinas e até postura da liderança.

 

Willian:

Você falou em postura da liderança. Qual é o papel da alta direção nesse novo cenário?

 

Valesca:

Cada vez mais central. Segurança dos alimentos não é só um tema da qualidade. A proposta reforça que decisões de investimento, priorização de recursos e gestão de riscos são estratégicas. Sem envolvimento real da liderança, o sistema vira burocracia — e isso não se sustenta mais.

 

Willian:

Muita gente comenta que essa proposta aproxima o Brasil das práticas internacionais. Você concorda?

 

Valesca:

Sim, concordo. A gente vê uma convergência clara com o Codex e esquemas como FSSC 22000 e outros. Para quem já vive esse ambiente, nada disso é estranho. O que muda é que o regulatório nacional passa a falar essa mesma língua de forma mais estruturada.

 

Willian:

E quanto ao APPCC em si: o que você acha que muda na forma como as empresas tratam o plano?

 

Valesca:

O APPCC precisa deixar de ser um documento “de gaveta”. Ele tem que refletir o processo real, com perigos bem avaliados, controles validados e monitoramentos que realmente gerem decisão. A tendência é aumentar a cobrança por coerência entre o que está no papel e o que acontece no chão de fábrica.

 

Willian:

Existe também um discurso forte sobre cultura de segurança dos alimentos. Isso é algo realmente novo?

 

Valesca:

Novo não é. Mas agora fica mais explícito que cultura é parte do sistema. Ela aparece na forma como as pessoas reagem a desvios, na qualidade dos registros, na repetição ou não dos mesmos problemas, e principalmente nas decisões da liderança. Não adianta ter procedimento bonito se o comportamento não acompanha.

 

Willian:

Se uma empresa te perguntasse hoje por onde começar para se preparar, o que você recomendaria?

 

Valesca:

Eu começaria com um diagnóstico honesto: o que do nosso sistema é gestão real e o que é só formalidade? Depois, olharia para três pilares: pessoas, processos e evidências. Se esses três estiverem alinhados, a empresa não só atende a nova regra como ganha maturidade operacional.

 

Willian:

Para fechar, qual mensagem você deixaria para a indústria diante dessa consulta pública?

 

Valesca:

Eu diria para não olhar isso como ameaça, mas como oportunidade. Quem usar esse momento para fortalecer a gestão da segurança dos alimentos vai sair mais competitivo, mais robusto e mais preparado para o futuro — não só para a ANVISA, mas para o mercado como um todo.

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